A noção de se ficar com o que é desagradável pode parecer estranho e talvez ate masoquista. Tendemos a
fugir-lhe comendo, jogando, bebendo, saindo ou dizendo “não chores”.
Há uns anos aprendi que o fugir da
dor, o não a sentir significava também não sentir o agradável, o prazer. A
mente que se habitua a fugir não distingue os momentos a sentir. Pura e
simplesmente não os sente.
Em terapia pediram-me para ficar com
a dor que sentia, quando a sentisse. Achei por um lado um exercício de
masoquismo e por outro pareceu-me impossível que no momento que abrisse a caixa
de Pandora não ficasse a chorar eternamente.
Este fim-de-semana com o J. aprendi
que com a dor normalmente agimos de uma de duas formas: ou fugimos dela a sete
pés ou nos afundamos nela, tornando-a parte da nossa identidade. Torná-la parte do que nos define não é o mesmo
que ficar com a dor que sentimos no momento, no presente. É ressoar com o
Passado e projectá-la no futuro.
Ficar com a dor no presente é
senti-la no corpo, chorá-la no agora e observar como se vai diluindo. É aperceber-nos que com o desagradável também coexiste o agradável, que este
não deixa de existir. Duas faces da mesma moeda.
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