Agarramo-nos à dor como se ela nos
desse identidade, para perpetuar a existência do outro que perdemos,
impedindo-nos de viver.
Repetimos comportamentos, anunciamos
a nossa própria morte em vida, decretamos a morte do nosso ser em prol do que
foi que não conseguimos libertar.
Choramos a perda do outro demasiado
tarde, quando todo o mundo parece já ter esquecido, aceitado e seguido em
frente. Tornamo-nos alienígenas no nosso luto tardio e culpamos o mundo por já
não podermos chorar.
Passamos a viver voltados para trás,
de costas para o agora como se nada mais existisse do que a certeza que nada
voltará a ser igual. Contemplamos as memórias revivendo-as em rodopio na nossa
cabeça, boicotando o bom do momento presente, como se já nada de bom pudesse
acontecer agora que ficámos sem um bocado de nós.
É assim quando numa morte morrem dois
em vez de um.
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