segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Vago








Deparo-me muitas vezes em consulta com a incapacidade de alguns pacientes responderem a uma pergunta aparentemente simples “Como se sente agora?”. São capazes de me descrever como se têm sentido ao longo do dia ou nas últimas semanas, mas as palavras “agora, neste momento” têm o condão de os baralhar como se fosse absolutamente impossível estar ciente do que se passa dentro de cada um a cada momento.

Normalmente peço-lhes para escutarem o que o corpo diz, fazerem um scan desde a ponta dos pés até à raiz dos cabelos, dando atenção às tensões ou ausência delas, à respiração, aos batimentos cardíacos. O corpo é uma óptima ferramenta para avaliarmos o nosso estado emocional. Normalmente está é desabitado.

Até há bem pouco tempo vivi em regime de coabitação com o meu corpo, qual casal separado que vive debaixo do mesmo tecto por falta de opção. Começámos a reconciliar-nos há uns meses, quando ele gritou mais do que um grupo de deputados na assembleia.  Hoje fazemos terapia de casal. A maior parte das vezes queixa-se que não o oiço. Calculo que seja verdade - habito-o pouco. Sempre pensei que ele estaria ali para mim, que era meu para que o usasse a meu bel-prazer. Nunca o vi como entidade que precisasse de atenção ou que o que me tentava dizer era de facto importante. Afinal temos uma relação a dois a ser trabalhada. Ele bem podia querer divorciar-se de mim. Teria uma justa causa.

Sem comentários:

Enviar um comentário