Deparo-me muitas vezes em consulta
com a incapacidade de alguns pacientes responderem a uma pergunta aparentemente
simples “Como se sente agora?”. São capazes de me descrever como se têm sentido
ao longo do dia ou nas últimas semanas, mas as palavras “agora, neste momento”
têm o condão de os baralhar como se fosse absolutamente impossível estar ciente
do que se passa dentro de cada um a cada momento.
Normalmente peço-lhes para escutarem
o que o corpo diz, fazerem um scan desde a ponta dos pés até à raiz dos
cabelos, dando atenção às tensões ou ausência delas, à respiração, aos
batimentos cardíacos. O corpo é uma óptima ferramenta para avaliarmos o nosso
estado emocional. Normalmente está é desabitado.
Até há bem pouco tempo vivi em regime
de coabitação com o meu corpo, qual casal separado que vive debaixo do mesmo
tecto por falta de opção. Começámos a reconciliar-nos há uns meses, quando ele
gritou mais do que um grupo de deputados na assembleia. Hoje fazemos terapia de casal. A maior parte
das vezes queixa-se que não o oiço. Calculo que seja verdade - habito-o pouco.
Sempre pensei que ele estaria ali para mim, que era meu para que o usasse a meu
bel-prazer. Nunca o vi como entidade que precisasse de atenção ou que o que me
tentava dizer era de facto importante. Afinal temos uma relação a dois a ser
trabalhada. Ele bem podia querer divorciar-se de mim. Teria uma justa causa.

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