domingo, 29 de janeiro de 2012

O melhor abraço


Quão difícil é amarmo-nos a nós mesmos? Quão difícil é olhar ao espelho, para o fundo dos olhos onde já não há corpo e dizer em voz alta para quem está ali “Eu amo-te”? Quanta compaixão sentimos verdadeiramente por nós?

Às vezes julgo que podíamos quase todos ser acusados pela Comissão de Protecção de Menores por maus tratos à nossa criança interior, ou pelo menos negligência

Impacientamo-nos, recriminamo-nos pelos erros, gritamos connosco em vez de olharmos para a criança que por vezes está pura e simplesmente perdida, deixada lá no passado sem crescer, agarrada ao que foi. Se visse uma criança perdida, assustada, lavada em lágrimas, que cometeu um erro, o que faria? Que exigência é esta connosco próprios que não nos permite aceitar que hoje ainda não conseguimos, que hoje ainda não foi o dia em que…?

Quando chegamos ao espelho para nos dizermos que nos amamos, o que acontece dentro de nós? Ou nem conseguimos chegar ao espelho? Ou algum pensamento surge avisando que aquela afirmação não é pura e simplesmente verdadeira? Ou repetimos na nossa cabeça “Eu aceito-me como sou, apesar de isto ou daquilo”? E se em vez de “apesar” usarmos “Eu aceito-me como sou com isto e com aquilo”? Somos o melhor que podemos ser neste momento.

[Amadurecer é integrar as partes de si aceitando-as. E podemos recuperar estas partes de nós compreendendo-as, representando-as e tornando-nos as partes rejeitadas. Ao fazermos este processo com as partes de nós que não aceitamos, deixamos de as evitar. Mas a capacidade de permanecer com aquilo que estávamos a evitar não é fácil].

Ao olhar no fundo dos olhos ou sentados a meditar enquanto nos observamos de fora como podemos não sentir uma profunda compaixão por aquele ser?

Ao amarmo-nos incondicionalmente pela primeira vez, surgem por vezes lágrimas e a necessidade de um abraço. Mas desta vez não um abraço da mãe, do pai, do marido, da amiga. Um abraço de nós para nós. O melhor de todos.

Isto não é meu!


A inconsciência tem destas coisas. Quantas vezes acordamos sentindo um desconforto que se quer fazer notar? Uma angústia que se insinua, uma tristeza que se vai instalando, sem motivo aparente. Se olharmos objectivamente para essa emoção, podemos não encontrar uma situação de vida actual que a justifique. Nem falo da Vida, ela mesma que em si naquele momento nada pode comportar dado que apenas nos encontramos deitados, cabeça na almofada e olhos acabados de abrir.

Mas há às vezes aquela admiração de quem não encontra a origem para tal emoção. Às vezes deixamos que se instale, que tome conta de nós nesse momento e que alastre durante todo o dia. Pensamos “olha, hoje estou assim” ou, se formos mais inconscientes ainda martirizamo-nos com essa emoção, sentindo-a até nas entranhas e deixando que ela se torne na nossa noção do Eu.

Se pusermos consciência nessa emoção, se a observarmos sem medo dela e a encararmos de frente, podemos ter algumas revelações absolutamente espantosas. Uma mente que estrebucha pois andamos há algum tempo sem lhe dar a atenção a que está habituada, o que frequentemente acontece nos primeiros tempos em que começamos a chamar-nos para o momento presente. Ou coisas ainda mais inacreditáveis. Falo dos momentos que “deveriam” ser felizes e que se transformam num dia tormentoso repleto de preocupações.

Reconheci-me de forma consciente num destes momentos há pouco tempo. Numa nova casa, pela primeira vez a viver sozinha, conquista suada e merecida, pouco consegui congratular-me por esse momento. As preocupações com o dinheiro tornaram-se constantes. O medo de não conseguir manter uma casa, que o dinheiro não chegasse, de ser despedida…enfim, qualquer razão era uma boa razão. Mas a minha situação de vida não dava qualquer crédito a esta preocupação. Ponderada como sempre fui, sai de casa dos meus pais com as contas feitas na minha cabeça, sabendo que teria que prescindir de algumas coisas, mas que era possível. Tinha também poupado algum dinheiro para situações imprevistas para que pudesse manter a minha independência financeira. Mas o medo continuava. A obsessão com a falta de dinheiro permanecia, mesmo que mês após mês o dinheiro não só chegasse para as minhas despesas como também sobrava e eu ia aumentando a minha “almofada de conforto”.

Não percebi durante muito tempo de onde vinha esta preocupação. Não conseguia desconstrui-la utilizando a mente a meu favor, nem quando olhava objectivamente para o meu extracto de conta.

Foi há muito pouco tempo que dei por mim em pé junto à janela da sala, sem pensar em nada e percebi “eu estou a fazer o mesmo que sempre vi a minha mãe a fazer”. A verdade é que na minha infância vi muitas vezes o dinheiro a não chegar ate ao fim do mês, a ginástica financeira que era precisa e o medo de perder a casa. E percebi que o meu medo era aprendido. Não era meu. Depois deu-se uma coisa maravilhosa que só associei mais tarde. Comecei a deitar fora objectos da minha casa que não eram meus e que não tinham utilidade. Exactamente como fiz à origem do meu medo.

O que é que já não tem utilidade para si neste momento?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Who are you...really"

Já gritei "Eureka" demasiadas vezes. E agora?


Surgem-me frequentemente pessoas com a mesma questão que em determinado momento da minha vida coloquei a mim própria – por uma situação de sofrimento (frequentemente de ansiedade generalizada ou pânico) fizemos durante anos terapia. Reconhecemos a ansiedade de separação, a origem, a causa, o padrão relacional. Tomamos consciência do passado original. Batalhamos os fantasmas do passado, repisamos situações, falamos vezes sem conta e em círculos da infância, dos pais, das situações traumáticas, mudamos de terapeuta e…os sintomas continuam. Por alguma razão, o corpo continua a responder da mesma forma, acelerando o coração e a respiração, tendo vertigens e suores frios, mostrando medo.

Incapazes de perceber o que se passa – afinal foram anos de terapia, de acupunctura, hipnose – desacreditam.

Ainda ontem me fizeram esta questão – vale a pena falar de tudo outra vez? Voltar a descrever o passado que já sei de cor e o que senti?

A questão essencial é a mudança. A maioria de nós procura no exterior a ajuda, o passe de mágica que fará com que tudo o que estamos a sentir agora, que nos impede de fluir com a vida, desapareça. A verdade é que a maioria de nós – em que eu me incluo – não se dirige ao consultório de um psicoterapeuta com a ideia que terá que mudar.

Não quero com isto dizer que a psicoterapia não seja importante. Longe de mim, eu que sou psicóloga de formação e por convicção plena.

O cerne da questão é que a determinada altura temos que agir no Agora. Depois do reconhecimento há que largar o passado, há que perdoar. Por muito que falemos sobre o que se passou, sobre o que vivenciamos, a mudança tem que acontecer, e tem que acontecer no momento presente.

Saber largar as defesas que criámos a determinada altura por ser o único recurso que tínhamos à mão porque hoje ele já não nos serve.

A fuga do momento presente que nos era demasiado doloroso na altura, depois de em terapia o termos enfrentado e chorado, já não nos é necessária agora. Agora já não somos impotentes como éramos em crianças. Talvez Agora o momento presente já não seja doloroso e, por “habito”, continuemos numa dança entre Passado e Futuro. Talvez agora estejamos apenas sentados à mesa do café a falar com um amigo, a ler um livro a apreciar o sol. E isso nada tem de doloroso. Já não há dor no Agora. E quando esta existir, já não precisamos de fugir pois já temos recursos para lidar com a dor no momento em que a sentimos. Já podemos responder aos nossos pais, expor o que sentimos, retirarmo-nos de situações que não nos são benéficas. Já podemos optar. Já temos poder.

A partir de determinado momento temos que agir no agora. Reconhecer o momento presente e que as defesas que usávamos já não são necessárias.

E este é todo um novo trabalho que exige amor verdadeiro amor por nós próprios. O amor que nos permite suavemente chamarmo-nos ao presente quando a mente flutua, o amor que nos permite ter momentos durante o dia em que simplesmente meditamos, apreciamos o Agora. O amor que nos faz dizer “Basta!”, que não permite mais que o mal que nos fizeram no passado continue a determinar a forma como nos sentimos no presente. O amor que nos permite perdoar o outro, aceitar que fez o melhor que sabia no momento e largá-lo. O amor.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Na dança entre Passado e Futuro


[Em algum momento da vida aprendi a fugir do momento presente. Não pela dureza da realidade mas pelo fascínio da fantasia. Perdia-me horas a fio a sonhar acordada, a fantasiar acerca de uma qualquer situação. Para mim, a mente sempre foi um instrumento fantástico, a base do meu ser e da minha identidade.

Quando fugia para o mundo dos sonhos, tudo era possível. Mais tarde foi-me útil – aprendi a contar os dias acelerando-lhes o passo na ânsia de chegar ao futuro. Acalmava-me a ansiedade de separação e tornava os dias suportáveis.

O que eu não vi foi a mente a tomar conta de mim, a apoderar-se de cada momento intelectualizando-o. Ou fugindo dele fazendo-o ressoar com o passado ou imaginando o momento que se iria seguir.

Creio que a quase todos nós isto acontece – a fuga do Agora e a submissão ao pensamento. Não sei quando aprendemos a desligar do momento presente, mas a realidade é que isto acontece à maioria de nós.

E isto não tem de ser necessariamente desagradável. Creio que quando o começamos a fazer seja uma forma de defesa, de protecção ainda que ilusória.

Mas a mente quando tem vontade própria, deixada à solta e a seu belo prazer, torna-se traiçoeira. Se ao inicio fugimos para as recordações de um passado reconfortante ou criamos um futuro em que tudo será melhor quando atingirmos este ou aquele objectivo, quando tivermos ou pudermos ser, esquecemos que a mente tem outra polaridade. Da mesma forma que criamos situações em que nos sentíamos bem, o reverso da medalha são as fantasias catastróficas acerca do futuro ou os fantasmas que ecoam vindos do passado. E a mente, vendo-se solta e imbuída de poder, trai-nos, cria depressão ao olhar para o que foi ou ansiedade projectando-se para o que virá.

É quando temos consciência que tudo isto se passa apenas na nossa cabeça que podemos começar a mudança. Porque a consciência tem destas coisas – a partir do momento em que sabemos já não podemos voltar atrás. A partir daí é uma questão de escolha. Qual é a sua?]

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Coerência Cardíaca II


Aqueles que entre vós experimentaram praticar o exercício de coerência cardíaca explicado num post anterior, podem ter experimentado alguma dificuldade em manter o foco na respiração. Esta dificuldade é absolutamente natural. A verdade é que para mantermos o foco numa coisa tão subtil mas contínua como o ciclo de entrada e saída do ar, precisamos de ter feito algum trabalho anterior.

Como explicado no livro “Mindfulness, bliss and beyond – a meditators handbook” de Ajhan Brahm, antes de nos aventurarmos numa meditação mindfulness, totalmente focada na respiração, precisamos de ter consolidado a nossa prática em dois passos anteriores.

O primeiro passo é a atenção total no momento presente, o que tenho vindo a referir como o Aqui e Agora. Para isso é necessário que estejamos dispostos a largar tanto o passado como o futuro, não mostrando qualquer interesse por eles. A verdade é que a contemplação do passado, exactamente por já ter passado, nada nos traz que não uma visão distorcida do que aconteceu. Permita-se a largar esse peso, essa bagagem que já não lhe serve. Quanto ao futuro, à antecipação de acontecimentos de nada nos serve pois nunca será como imaginámos. Liberte também essa antecipação, a mente, os pensamentos que lhe dizem que o estão a proteger do que possa vir a acontecer.

Este é o primeiro passo da meditação: estar presente no Agora. E isto não é algo que tenha de ser feito enquanto se senta na posição de lótus ou quando se deita para meditar. É algo que pode fazer neste exacto momento, pois o objectivo é que seja um estado constante de presença. O Agora está a acontecer neste exacto instante e não apenas quando se concede alguns minutos para meditar. Pode começar a treinar a sua atenção quando e onde quiser pois é aí que o Agora está.

Uma vez que tenha consolidado este primeiro passo, e isso demorará o exacto tempo que tiver que demorar (não desespere!), é importante passarmos para a fase seguinte: a consciência silenciosa do momento presente. Isto significa tão-somente a observação sem comentários. Esta consciência silenciosa talvez seja o mais importante quando decide meditar ou melhor estar verdadeiramente presente.

Este segundo passo nada é mais do que simplesmente observar sem tecer qualquer tipo de comentário, observação ou pensamento. Observar as folhas da palmeira que se movem com o vento, a sua ondulação, a cadência ritmada de cada folha que oscila para a esquerda e para a direita, que rodopia. E isto sem pensar “Olha, está vento e as folhas das palmeiras movem-se de acordo com ele.”. Abstenha-se de qualquer pensamento e observe apenas as folhas. E isto tem a ver de uma forma muito simples com o próprio fluir da vida. É constante e, por isso, cada vez que nos detemos a pensar em vez de observar, deixamos de nos aperceber de todos os movimentos, de estarmos completamente presentes. Se observar completamente cada momento e como eles se encadeiam não terá tempo para tecer qualquer comentário acerca deles, pois está sempre a acontecer qualquer coisa. Repare que de cada vez que tecer um comentário sobre algo que acabou de acontecer está já a falar sobre o passado e não estará no Agora.

Este é o caminho para o silêncio interior. Na presença não há espaço para o pensamento.

Uma forma fácil de começar a faze-lo é observar-se os seus pensamentos de fora, não se identificando com eles. Reparará se estiver disposto a isso naquele momento de silêncio que fica entre o fim de um pensamento e o inicio de outro. Essa é a consciência silenciosa. Esse é o espaço que pretendemos que cresça.

É a partir do treino destas duas fases que podemos começar a desenvolver o foco silencioso apenas numa coisa, como propõe o exercício de coerência cardíaca com o foco na respiração.

Passe o tempo que necessitar a treinar os dois primeiros passos. Eles são vitais. Não se impaciente, saiba que faz parte do seu caminho e que poderá treina-los sempre e onde quiser. Basta estar disposto a isso.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Das dúvidas e inquietações


[A questão que surge sempre, inevitavelmente, é o como. Como é que eu liberto a cabeça? Quando é que isso vai acontecer? A questão é sempre como encaixar num dia-a-dia de tarefas, planos, de funcionalismo e de questões práticas conseguir esvaziar a cabeça. A resposta é: não sei. A resposta é: pelo menos sei que não desistir, estar comprometido com a mudança é pelo menos o primeiro passo. A escolha de um novo caminho não é fácil e as dúvidas surgem sempre. É fácil fugir, é fácil voltar aos velhos padrões porque a mudança não ocorre nunca de um dia para o outro. Julgo que talvez o mais importante seja estarmos conscientes que estamos a percorre-lo. Que será maravilhoso atingir aquele estado de graça em que passado e futuro já não nos assombram a mente pois já não é nela que vivemos.

O caminho está repleto de dúvidas e de impaciência. Pelo menos para a maioria de nós.

Mas na realidade quando me deparo com estas questões - e meus queridos isso é coisa para acontecer-me não só diariamente como de hora a hora – obrigo-me a parar. Como é que posso pedir-me para mudar radicalmente a minha vivência interna de um momento para o outro se durante 29 anos vivi na minha mente? Seria sempre exigir demasiado de mim. Será sempre pedir demasiado de cada um de nós que nos tornemos ‘seres iluminados’ vivendo numa paz de espírito completa e constante se durante anos nós e os que nos antecederam vivemos nas nossas cabeças. E se nos olharmos de fora e tivermos verdadeira compaixão por nós, facilmente nos apercebemos que essa exigência não é justa. Ela acontece a conta gotas, a cada momento breve em que nos tornamos presentes e habitamos o nosso corpo.

A aceitação joga aqui um papel relevante. Hoje foi isto que consegui fazer. Hoje não consegui manter a minha mente focada durante os 30 minutos em que me dispus a meditar. Porém talvez tenha conseguido por breves segundos manter a minha atenção focada e congratulo-me por isso. Amanha os cinco segundos poderão passar a dez segundos e eu ficarei feliz por isso. Eu faço aquilo que me é possível a cada momento. E eu abraço-me pela decisão de me ter sentado ou deitado para meditar, mesmo que não tenha conseguido faze-lo durante todo o tempo. Comprometo-me a amanhã tentar outra vez, a voltar a amar-me o suficiente para saber que é o melhor para mim, a amar-me o suficiente para voltar a dar-me aqueles momentos a mim própria.

Eu sou o que sou. E aceito-me como sou. Mesmo que isso envolva a frustração de não ter conseguido atingir o meu objectivo para aquela meditação, eu aceito essa frustração.

E a cada momento em que me torno consciente de que a minha mente fugiu do momento presente, a cada instante em que percebo que tenho os ombros tensos, ou os breves minutos em que sinto apenas o sol a bater-me na cara e aprecio o seu calor, sei que estou a fazer o meu caminho. Demore o tempo que demorar.

E todos os dias escolho continuar este caminho, olhar pela janela de manhã e repetir para mim mesma: Hoje eu escolho ser um dia feliz.]