[Em algum momento da vida aprendi a fugir do momento presente. Não pela
dureza da realidade mas pelo fascínio da fantasia. Perdia-me horas a fio a
sonhar acordada, a fantasiar acerca de uma qualquer situação. Para mim, a mente
sempre foi um instrumento fantástico, a base do meu ser e da minha identidade.
Quando fugia para o mundo dos sonhos, tudo era possível. Mais tarde
foi-me útil – aprendi a contar os dias acelerando-lhes o passo na ânsia de
chegar ao futuro. Acalmava-me a ansiedade de separação e tornava os dias
suportáveis.
O que eu não vi foi a mente a tomar conta de mim, a apoderar-se de cada
momento intelectualizando-o. Ou fugindo dele fazendo-o ressoar com o passado ou
imaginando o momento que se iria seguir.
Creio que a quase todos nós isto acontece – a fuga do Agora e a submissão
ao pensamento. Não sei quando aprendemos a desligar do momento presente, mas a
realidade é que isto acontece à maioria de nós.
E isto não tem de ser necessariamente desagradável. Creio que quando o
começamos a fazer seja uma forma de defesa, de protecção ainda que ilusória.
Mas a mente quando tem vontade própria, deixada à solta e a seu belo
prazer, torna-se traiçoeira. Se ao inicio fugimos para as recordações de um
passado reconfortante ou criamos um futuro em que tudo será melhor quando
atingirmos este ou aquele objectivo, quando tivermos ou pudermos ser,
esquecemos que a mente tem outra polaridade. Da mesma forma que criamos
situações em que nos sentíamos bem, o reverso da medalha são as fantasias
catastróficas acerca do futuro ou os fantasmas que ecoam vindos do passado. E a
mente, vendo-se solta e imbuída de poder, trai-nos, cria depressão ao olhar
para o que foi ou ansiedade projectando-se para o que virá.
É quando temos consciência que tudo isto se passa apenas na nossa cabeça
que podemos começar a mudança. Porque a consciência tem destas coisas – a
partir do momento em que sabemos já não podemos voltar atrás. A partir daí é
uma questão de escolha. Qual é a sua?]
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