Surgem-me frequentemente pessoas com
a mesma questão que em determinado momento da minha vida coloquei a mim própria
– por uma situação de sofrimento (frequentemente de ansiedade generalizada ou
pânico) fizemos durante anos terapia. Reconhecemos a ansiedade de separação, a
origem, a causa, o padrão relacional. Tomamos consciência do passado original.
Batalhamos os fantasmas do passado, repisamos situações, falamos vezes sem
conta e em círculos da infância, dos pais, das situações traumáticas, mudamos
de terapeuta e…os sintomas continuam. Por alguma razão, o corpo continua a
responder da mesma forma, acelerando o coração e a respiração, tendo vertigens
e suores frios, mostrando medo.
Incapazes de perceber o que se passa
– afinal foram anos de terapia, de acupunctura, hipnose – desacreditam.
Ainda ontem me fizeram esta questão –
vale a pena falar de tudo outra vez? Voltar a descrever o passado que já sei de
cor e o que senti?
A questão essencial é a mudança. A
maioria de nós procura no exterior a ajuda, o passe de mágica que fará com que
tudo o que estamos a sentir agora, que nos impede de fluir com a vida,
desapareça. A verdade é que a maioria de nós – em que eu me incluo – não se
dirige ao consultório de um psicoterapeuta com a ideia que terá que mudar.
Não quero com isto dizer que a
psicoterapia não seja importante. Longe de mim, eu que sou psicóloga de
formação e por convicção plena.
O cerne da questão é que a
determinada altura temos que agir no Agora. Depois do reconhecimento há que
largar o passado, há que perdoar. Por muito que falemos sobre o que se passou,
sobre o que vivenciamos, a mudança tem que acontecer, e tem que acontecer no
momento presente.
Saber largar as defesas que criámos a
determinada altura por ser o único recurso que tínhamos à mão porque hoje ele
já não nos serve.
A fuga do momento presente que nos
era demasiado doloroso na altura, depois de em terapia o termos enfrentado e
chorado, já não nos é necessária agora. Agora já não somos impotentes como
éramos em crianças. Talvez Agora o momento presente já não seja doloroso e, por
“habito”, continuemos numa dança entre Passado e Futuro. Talvez agora estejamos
apenas sentados à mesa do café a falar com um amigo, a ler um livro a apreciar
o sol. E isso nada tem de doloroso. Já não há dor no Agora. E quando esta
existir, já não precisamos de fugir pois já temos recursos para lidar com a dor
no momento em que a sentimos. Já podemos responder aos nossos pais, expor o que
sentimos, retirarmo-nos de situações que não nos são benéficas. Já podemos
optar. Já temos poder.
A partir de determinado momento temos
que agir no agora. Reconhecer o momento presente e que as defesas que usávamos
já não são necessárias.
E este é todo um novo trabalho que
exige amor verdadeiro amor por nós próprios. O amor que nos permite suavemente
chamarmo-nos ao presente quando a mente flutua, o amor que nos permite ter
momentos durante o dia em que simplesmente meditamos, apreciamos o Agora. O
amor que nos faz dizer “Basta!”, que não permite mais que o mal que nos fizeram
no passado continue a determinar a forma como nos sentimos no presente. O amor
que nos permite perdoar o outro, aceitar que fez o melhor que sabia no momento
e largá-lo. O amor.
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