terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Já gritei "Eureka" demasiadas vezes. E agora?


Surgem-me frequentemente pessoas com a mesma questão que em determinado momento da minha vida coloquei a mim própria – por uma situação de sofrimento (frequentemente de ansiedade generalizada ou pânico) fizemos durante anos terapia. Reconhecemos a ansiedade de separação, a origem, a causa, o padrão relacional. Tomamos consciência do passado original. Batalhamos os fantasmas do passado, repisamos situações, falamos vezes sem conta e em círculos da infância, dos pais, das situações traumáticas, mudamos de terapeuta e…os sintomas continuam. Por alguma razão, o corpo continua a responder da mesma forma, acelerando o coração e a respiração, tendo vertigens e suores frios, mostrando medo.

Incapazes de perceber o que se passa – afinal foram anos de terapia, de acupunctura, hipnose – desacreditam.

Ainda ontem me fizeram esta questão – vale a pena falar de tudo outra vez? Voltar a descrever o passado que já sei de cor e o que senti?

A questão essencial é a mudança. A maioria de nós procura no exterior a ajuda, o passe de mágica que fará com que tudo o que estamos a sentir agora, que nos impede de fluir com a vida, desapareça. A verdade é que a maioria de nós – em que eu me incluo – não se dirige ao consultório de um psicoterapeuta com a ideia que terá que mudar.

Não quero com isto dizer que a psicoterapia não seja importante. Longe de mim, eu que sou psicóloga de formação e por convicção plena.

O cerne da questão é que a determinada altura temos que agir no Agora. Depois do reconhecimento há que largar o passado, há que perdoar. Por muito que falemos sobre o que se passou, sobre o que vivenciamos, a mudança tem que acontecer, e tem que acontecer no momento presente.

Saber largar as defesas que criámos a determinada altura por ser o único recurso que tínhamos à mão porque hoje ele já não nos serve.

A fuga do momento presente que nos era demasiado doloroso na altura, depois de em terapia o termos enfrentado e chorado, já não nos é necessária agora. Agora já não somos impotentes como éramos em crianças. Talvez Agora o momento presente já não seja doloroso e, por “habito”, continuemos numa dança entre Passado e Futuro. Talvez agora estejamos apenas sentados à mesa do café a falar com um amigo, a ler um livro a apreciar o sol. E isso nada tem de doloroso. Já não há dor no Agora. E quando esta existir, já não precisamos de fugir pois já temos recursos para lidar com a dor no momento em que a sentimos. Já podemos responder aos nossos pais, expor o que sentimos, retirarmo-nos de situações que não nos são benéficas. Já podemos optar. Já temos poder.

A partir de determinado momento temos que agir no agora. Reconhecer o momento presente e que as defesas que usávamos já não são necessárias.

E este é todo um novo trabalho que exige amor verdadeiro amor por nós próprios. O amor que nos permite suavemente chamarmo-nos ao presente quando a mente flutua, o amor que nos permite ter momentos durante o dia em que simplesmente meditamos, apreciamos o Agora. O amor que nos faz dizer “Basta!”, que não permite mais que o mal que nos fizeram no passado continue a determinar a forma como nos sentimos no presente. O amor que nos permite perdoar o outro, aceitar que fez o melhor que sabia no momento e largá-lo. O amor.

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