Quão difícil é amarmo-nos a nós
mesmos? Quão difícil é olhar ao espelho, para o fundo dos olhos onde já não há
corpo e dizer em voz alta para quem está ali “Eu amo-te”? Quanta compaixão
sentimos verdadeiramente por nós?
Às vezes julgo que podíamos quase
todos ser acusados pela Comissão de Protecção de Menores por maus tratos à
nossa criança interior, ou pelo menos negligência
Impacientamo-nos, recriminamo-nos
pelos erros, gritamos connosco em vez de olharmos para a criança que por vezes
está pura e simplesmente perdida, deixada lá no passado sem crescer, agarrada
ao que foi. Se visse uma criança perdida, assustada, lavada em lágrimas, que
cometeu um erro, o que faria? Que exigência é esta connosco próprios que não
nos permite aceitar que hoje ainda não conseguimos, que hoje ainda não foi o
dia em que…?
Quando chegamos ao espelho para nos
dizermos que nos amamos, o que acontece dentro de nós? Ou nem conseguimos
chegar ao espelho? Ou algum pensamento surge avisando que aquela afirmação não
é pura e simplesmente verdadeira? Ou repetimos na nossa cabeça “Eu aceito-me
como sou, apesar de isto ou daquilo”? E se em vez de “apesar” usarmos “Eu
aceito-me como sou com isto e com aquilo”? Somos o melhor que podemos ser neste
momento.
[Amadurecer é integrar as partes de si aceitando-as. E podemos recuperar
estas partes de nós compreendendo-as, representando-as e tornando-nos as partes
rejeitadas. Ao fazermos este processo com as partes de nós que não aceitamos,
deixamos de as evitar. Mas a capacidade de permanecer com aquilo que estávamos
a evitar não é fácil].
Ao olhar no fundo dos olhos ou
sentados a meditar enquanto nos observamos de fora como podemos não sentir uma
profunda compaixão por aquele ser?
Ao amarmo-nos incondicionalmente pela
primeira vez, surgem por vezes lágrimas e a necessidade de um abraço. Mas desta
vez não um abraço da mãe, do pai, do marido, da amiga. Um abraço de nós para
nós. O melhor de todos.
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