segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Coerência Cardíaca II


Aqueles que entre vós experimentaram praticar o exercício de coerência cardíaca explicado num post anterior, podem ter experimentado alguma dificuldade em manter o foco na respiração. Esta dificuldade é absolutamente natural. A verdade é que para mantermos o foco numa coisa tão subtil mas contínua como o ciclo de entrada e saída do ar, precisamos de ter feito algum trabalho anterior.

Como explicado no livro “Mindfulness, bliss and beyond – a meditators handbook” de Ajhan Brahm, antes de nos aventurarmos numa meditação mindfulness, totalmente focada na respiração, precisamos de ter consolidado a nossa prática em dois passos anteriores.

O primeiro passo é a atenção total no momento presente, o que tenho vindo a referir como o Aqui e Agora. Para isso é necessário que estejamos dispostos a largar tanto o passado como o futuro, não mostrando qualquer interesse por eles. A verdade é que a contemplação do passado, exactamente por já ter passado, nada nos traz que não uma visão distorcida do que aconteceu. Permita-se a largar esse peso, essa bagagem que já não lhe serve. Quanto ao futuro, à antecipação de acontecimentos de nada nos serve pois nunca será como imaginámos. Liberte também essa antecipação, a mente, os pensamentos que lhe dizem que o estão a proteger do que possa vir a acontecer.

Este é o primeiro passo da meditação: estar presente no Agora. E isto não é algo que tenha de ser feito enquanto se senta na posição de lótus ou quando se deita para meditar. É algo que pode fazer neste exacto momento, pois o objectivo é que seja um estado constante de presença. O Agora está a acontecer neste exacto instante e não apenas quando se concede alguns minutos para meditar. Pode começar a treinar a sua atenção quando e onde quiser pois é aí que o Agora está.

Uma vez que tenha consolidado este primeiro passo, e isso demorará o exacto tempo que tiver que demorar (não desespere!), é importante passarmos para a fase seguinte: a consciência silenciosa do momento presente. Isto significa tão-somente a observação sem comentários. Esta consciência silenciosa talvez seja o mais importante quando decide meditar ou melhor estar verdadeiramente presente.

Este segundo passo nada é mais do que simplesmente observar sem tecer qualquer tipo de comentário, observação ou pensamento. Observar as folhas da palmeira que se movem com o vento, a sua ondulação, a cadência ritmada de cada folha que oscila para a esquerda e para a direita, que rodopia. E isto sem pensar “Olha, está vento e as folhas das palmeiras movem-se de acordo com ele.”. Abstenha-se de qualquer pensamento e observe apenas as folhas. E isto tem a ver de uma forma muito simples com o próprio fluir da vida. É constante e, por isso, cada vez que nos detemos a pensar em vez de observar, deixamos de nos aperceber de todos os movimentos, de estarmos completamente presentes. Se observar completamente cada momento e como eles se encadeiam não terá tempo para tecer qualquer comentário acerca deles, pois está sempre a acontecer qualquer coisa. Repare que de cada vez que tecer um comentário sobre algo que acabou de acontecer está já a falar sobre o passado e não estará no Agora.

Este é o caminho para o silêncio interior. Na presença não há espaço para o pensamento.

Uma forma fácil de começar a faze-lo é observar-se os seus pensamentos de fora, não se identificando com eles. Reparará se estiver disposto a isso naquele momento de silêncio que fica entre o fim de um pensamento e o inicio de outro. Essa é a consciência silenciosa. Esse é o espaço que pretendemos que cresça.

É a partir do treino destas duas fases que podemos começar a desenvolver o foco silencioso apenas numa coisa, como propõe o exercício de coerência cardíaca com o foco na respiração.

Passe o tempo que necessitar a treinar os dois primeiros passos. Eles são vitais. Não se impaciente, saiba que faz parte do seu caminho e que poderá treina-los sempre e onde quiser. Basta estar disposto a isso.

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