Aqueles que entre vós experimentaram
praticar o exercício de coerência cardíaca explicado num post anterior, podem
ter experimentado alguma dificuldade em manter o foco na respiração. Esta
dificuldade é absolutamente natural. A verdade é que para mantermos o foco numa
coisa tão subtil mas contínua como o ciclo de entrada e saída do ar, precisamos
de ter feito algum trabalho anterior.
Como explicado no livro “Mindfulness,
bliss and beyond – a meditators handbook” de Ajhan Brahm, antes de nos
aventurarmos numa meditação mindfulness, totalmente focada na respiração,
precisamos de ter consolidado a nossa prática em dois passos anteriores.
O primeiro passo é a atenção total no
momento presente, o que tenho vindo a referir como o Aqui e Agora. Para isso é
necessário que estejamos dispostos a largar tanto o passado como o futuro, não
mostrando qualquer interesse por eles. A verdade é que a contemplação do
passado, exactamente por já ter passado, nada nos traz que não uma visão distorcida
do que aconteceu. Permita-se a largar esse peso, essa bagagem que já não lhe
serve. Quanto ao futuro, à antecipação de acontecimentos de nada nos serve pois
nunca será como imaginámos. Liberte também essa antecipação, a mente, os
pensamentos que lhe dizem que o estão a proteger do que possa vir a acontecer.
Este é o primeiro passo da meditação:
estar presente no Agora. E isto não é algo que tenha de ser feito enquanto se
senta na posição de lótus ou quando se deita para meditar. É algo que pode
fazer neste exacto momento, pois o objectivo é que seja um estado constante de
presença. O Agora está a acontecer neste exacto instante e não apenas quando se
concede alguns minutos para meditar. Pode começar a treinar a sua atenção
quando e onde quiser pois é aí que o Agora está.
Uma vez que tenha consolidado este
primeiro passo, e isso demorará o exacto tempo que tiver que demorar (não
desespere!), é importante passarmos para a fase seguinte: a consciência
silenciosa do momento presente. Isto significa tão-somente a observação sem
comentários. Esta consciência silenciosa talvez seja o mais importante quando
decide meditar ou melhor estar verdadeiramente presente.
Este segundo passo nada é mais do que
simplesmente observar sem tecer qualquer tipo de comentário, observação ou
pensamento. Observar as folhas da palmeira que se movem com o vento, a sua ondulação,
a cadência ritmada de cada folha que oscila para a esquerda e para a direita,
que rodopia. E isto sem pensar “Olha, está vento e as folhas das palmeiras
movem-se de acordo com ele.”. Abstenha-se de qualquer pensamento e observe
apenas as folhas. E isto tem a ver de uma forma muito simples com o próprio
fluir da vida. É constante e, por isso, cada vez que nos detemos a pensar em
vez de observar, deixamos de nos aperceber de todos os movimentos, de estarmos
completamente presentes. Se observar completamente cada momento e como eles se
encadeiam não terá tempo para tecer qualquer comentário acerca deles, pois está
sempre a acontecer qualquer coisa. Repare que de cada vez que tecer um comentário
sobre algo que acabou de acontecer está já a falar sobre o passado e não estará
no Agora.
Este é o caminho para o silêncio
interior. Na presença não há espaço para o pensamento.
Uma forma fácil de começar a faze-lo
é observar-se os seus pensamentos de fora, não se identificando com eles.
Reparará se estiver disposto a isso naquele momento de silêncio que fica entre
o fim de um pensamento e o inicio de outro. Essa é a consciência silenciosa.
Esse é o espaço que pretendemos que cresça.
É a partir do treino destas duas
fases que podemos começar a desenvolver o foco silencioso apenas numa coisa,
como propõe o exercício de coerência cardíaca com o foco na respiração.
Passe o tempo que necessitar a
treinar os dois primeiros passos. Eles são vitais. Não se impaciente, saiba que
faz parte do seu caminho e que poderá treina-los sempre e onde quiser. Basta
estar disposto a isso.
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