domingo, 15 de janeiro de 2012

Das dúvidas e inquietações


[A questão que surge sempre, inevitavelmente, é o como. Como é que eu liberto a cabeça? Quando é que isso vai acontecer? A questão é sempre como encaixar num dia-a-dia de tarefas, planos, de funcionalismo e de questões práticas conseguir esvaziar a cabeça. A resposta é: não sei. A resposta é: pelo menos sei que não desistir, estar comprometido com a mudança é pelo menos o primeiro passo. A escolha de um novo caminho não é fácil e as dúvidas surgem sempre. É fácil fugir, é fácil voltar aos velhos padrões porque a mudança não ocorre nunca de um dia para o outro. Julgo que talvez o mais importante seja estarmos conscientes que estamos a percorre-lo. Que será maravilhoso atingir aquele estado de graça em que passado e futuro já não nos assombram a mente pois já não é nela que vivemos.

O caminho está repleto de dúvidas e de impaciência. Pelo menos para a maioria de nós.

Mas na realidade quando me deparo com estas questões - e meus queridos isso é coisa para acontecer-me não só diariamente como de hora a hora – obrigo-me a parar. Como é que posso pedir-me para mudar radicalmente a minha vivência interna de um momento para o outro se durante 29 anos vivi na minha mente? Seria sempre exigir demasiado de mim. Será sempre pedir demasiado de cada um de nós que nos tornemos ‘seres iluminados’ vivendo numa paz de espírito completa e constante se durante anos nós e os que nos antecederam vivemos nas nossas cabeças. E se nos olharmos de fora e tivermos verdadeira compaixão por nós, facilmente nos apercebemos que essa exigência não é justa. Ela acontece a conta gotas, a cada momento breve em que nos tornamos presentes e habitamos o nosso corpo.

A aceitação joga aqui um papel relevante. Hoje foi isto que consegui fazer. Hoje não consegui manter a minha mente focada durante os 30 minutos em que me dispus a meditar. Porém talvez tenha conseguido por breves segundos manter a minha atenção focada e congratulo-me por isso. Amanha os cinco segundos poderão passar a dez segundos e eu ficarei feliz por isso. Eu faço aquilo que me é possível a cada momento. E eu abraço-me pela decisão de me ter sentado ou deitado para meditar, mesmo que não tenha conseguido faze-lo durante todo o tempo. Comprometo-me a amanhã tentar outra vez, a voltar a amar-me o suficiente para saber que é o melhor para mim, a amar-me o suficiente para voltar a dar-me aqueles momentos a mim própria.

Eu sou o que sou. E aceito-me como sou. Mesmo que isso envolva a frustração de não ter conseguido atingir o meu objectivo para aquela meditação, eu aceito essa frustração.

E a cada momento em que me torno consciente de que a minha mente fugiu do momento presente, a cada instante em que percebo que tenho os ombros tensos, ou os breves minutos em que sinto apenas o sol a bater-me na cara e aprecio o seu calor, sei que estou a fazer o meu caminho. Demore o tempo que demorar.

E todos os dias escolho continuar este caminho, olhar pela janela de manhã e repetir para mim mesma: Hoje eu escolho ser um dia feliz.]

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