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questão que surge sempre, inevitavelmente, é o como. Como é que eu liberto a
cabeça? Quando é que isso vai acontecer? A questão é sempre como encaixar num
dia-a-dia de tarefas, planos, de funcionalismo e de questões práticas conseguir
esvaziar a cabeça. A resposta é: não sei. A resposta é: pelo menos sei que não
desistir, estar comprometido com a mudança é pelo menos o primeiro passo. A
escolha de um novo caminho não é fácil e as dúvidas surgem sempre. É fácil
fugir, é fácil voltar aos velhos padrões porque a mudança não ocorre nunca de
um dia para o outro. Julgo que talvez o mais importante seja estarmos
conscientes que estamos a percorre-lo. Que será maravilhoso atingir aquele
estado de graça em que passado e futuro já não nos assombram a mente pois já
não é nela que vivemos.
O caminho está repleto de dúvidas e de impaciência. Pelo menos para a
maioria de nós.
Mas na realidade quando me deparo com estas questões - e meus queridos
isso é coisa para acontecer-me não só diariamente como de hora a hora – obrigo-me
a parar. Como é que posso pedir-me para mudar radicalmente a minha vivência
interna de um momento para o outro se durante 29 anos vivi na minha mente?
Seria sempre exigir demasiado de mim. Será sempre pedir demasiado de cada um de
nós que nos tornemos ‘seres iluminados’ vivendo numa paz de espírito completa e
constante se durante anos nós e os que nos antecederam vivemos nas nossas
cabeças. E se nos olharmos de fora e tivermos verdadeira compaixão por nós,
facilmente nos apercebemos que essa exigência não é justa. Ela acontece a conta
gotas, a cada momento breve em que nos tornamos presentes e habitamos o nosso
corpo.
A aceitação joga aqui um papel relevante. Hoje foi isto que consegui
fazer. Hoje não consegui manter a minha mente focada durante os 30 minutos em
que me dispus a meditar. Porém talvez tenha conseguido por breves segundos
manter a minha atenção focada e congratulo-me por isso. Amanha os cinco
segundos poderão passar a dez segundos e eu ficarei feliz por isso. Eu faço
aquilo que me é possível a cada momento. E eu abraço-me pela decisão de me ter
sentado ou deitado para meditar, mesmo que não tenha conseguido faze-lo durante
todo o tempo. Comprometo-me a amanhã tentar outra vez, a voltar a amar-me o
suficiente para saber que é o melhor para mim, a amar-me o suficiente para
voltar a dar-me aqueles momentos a mim própria.
Eu sou o que sou. E aceito-me como sou. Mesmo que isso envolva a
frustração de não ter conseguido atingir o meu objectivo para aquela meditação,
eu aceito essa frustração.
E a cada momento em que me torno consciente de que a minha mente fugiu do
momento presente, a cada instante em que percebo que tenho os ombros tensos, ou
os breves minutos em que sinto apenas o sol a bater-me na cara e aprecio o seu
calor, sei que estou a fazer o meu caminho. Demore o tempo que demorar.
E todos os dias escolho continuar este caminho, olhar pela janela de
manhã e repetir para mim mesma: Hoje eu escolho ser um dia feliz.]
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