A inconsciência tem destas coisas.
Quantas vezes acordamos sentindo um desconforto que se quer fazer notar? Uma
angústia que se insinua, uma tristeza que se vai instalando, sem motivo
aparente. Se olharmos objectivamente para essa emoção, podemos não encontrar
uma situação de vida actual que a justifique. Nem falo da Vida, ela mesma que
em si naquele momento nada pode comportar dado que apenas nos encontramos
deitados, cabeça na almofada e olhos acabados de abrir.
Mas há às vezes aquela admiração de
quem não encontra a origem para tal emoção. Às vezes deixamos que se instale,
que tome conta de nós nesse momento e que alastre durante todo o dia. Pensamos
“olha, hoje estou assim” ou, se formos mais inconscientes ainda martirizamo-nos
com essa emoção, sentindo-a até nas entranhas e deixando que ela se torne na
nossa noção do Eu.
Se pusermos consciência nessa emoção,
se a observarmos sem medo dela e a encararmos de frente, podemos ter algumas
revelações absolutamente espantosas. Uma mente que estrebucha pois andamos há
algum tempo sem lhe dar a atenção a que está habituada, o que frequentemente
acontece nos primeiros tempos em que começamos a chamar-nos para o momento
presente. Ou coisas ainda mais inacreditáveis. Falo dos momentos que “deveriam”
ser felizes e que se transformam num dia tormentoso repleto de preocupações.
Reconheci-me de forma consciente num
destes momentos há pouco tempo. Numa nova casa, pela primeira vez a viver
sozinha, conquista suada e merecida, pouco consegui congratular-me por esse
momento. As preocupações com o dinheiro tornaram-se constantes. O medo de não
conseguir manter uma casa, que o dinheiro não chegasse, de ser despedida…enfim,
qualquer razão era uma boa razão. Mas a minha situação de vida não dava
qualquer crédito a esta preocupação. Ponderada como sempre fui, sai de casa dos
meus pais com as contas feitas na minha cabeça, sabendo que teria que
prescindir de algumas coisas, mas que era possível. Tinha também poupado algum
dinheiro para situações imprevistas para que pudesse manter a minha
independência financeira. Mas o medo continuava. A obsessão com a falta de
dinheiro permanecia, mesmo que mês após mês o dinheiro não só chegasse para as
minhas despesas como também sobrava e eu ia aumentando a minha “almofada de
conforto”.
Não percebi durante muito tempo de
onde vinha esta preocupação. Não conseguia desconstrui-la utilizando a mente a
meu favor, nem quando olhava objectivamente para o meu extracto de conta.
Foi há muito pouco tempo que dei por
mim em pé junto à janela da sala, sem pensar em nada e percebi “eu estou a
fazer o mesmo que sempre vi a minha mãe a fazer”. A verdade é que na minha infância
vi muitas vezes o dinheiro a não chegar ate ao fim do mês, a ginástica
financeira que era precisa e o medo de perder a casa. E percebi que o meu medo
era aprendido. Não era meu. Depois deu-se uma coisa maravilhosa que só associei
mais tarde. Comecei a deitar fora objectos da minha casa que não eram meus e
que não tinham utilidade. Exactamente como fiz à origem do meu medo.
O que é que já não tem utilidade para
si neste momento?
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